Família

MARIA E MIRELLA

Nada é desperdiçado.


Tudo é bagagem que guardamos na mochila e usamos quilômetros à frente, em situações que hoje não imaginamos.


Se tem uma coisa certa deste ano incerto é que não foi em vão.

Nem os menores dos ensinamentos.


A sogra que dava pirulito para a caçula, todo almoço de domingo.

Mas que estava lá, presente.


A escola que não parecia dos sonhos. E que não era lá aquela Brastemp, afinal, tantas opções incríveis que custam uma fortuna. Mas que fez falta. E se fez falta!


O casal de amigos com o filho que batia em geral, mas que animava qualquer evento. E alegrava qualquer jantar de sexta-feira.


A vizinha que surgia de vez em quando e esquecia a hora de ir embora. Mas que conversava. E tinha risada boa.


As pequenas coisas que eram de fato pequenas. Mas vistas por lentes de intolerância e impaciência.


Assim aprendemos.

Percebemos que a solidão machuca. E quatro paredes também.


Vimos que é preciso uma relação respeitosa com o medo. Pois em excesso, cria novas questões e aumenta velhas angústias.


Mas um pouco é necessário. Até para enxergarmos o milagre que é estarmos aqui, vivos.


Descobrimos que dois metros é muito, realmente bastante quando se trata de convivência.


E que estar perto é bom, até na fila do mercado. Ter gente ao lado não é garantido. É privilégio, dos grandes.


Aprendemos que criar filhos a sós, triplica a dificuldade já natural da frase “criar filhos”.

E que crianças incomodadas, certamente incomodam.


Que não ter os desafios que vêm da rua, pode ser tão complexo quanto tê-los.

E que é difícil não ter para onde olhar, se não para dentro.


Tiveram aqueles que não gostaram do que viram e, por isso, atacaram.

E seguem atacando.

E não se dão conta.


Tarefa árdua constatar que poucas são as certeza do lado de fora.


Trabalho, circunstâncias, pessoas, dinheiro.

Tudo é instável por mais bem fantasiado de eterno tente ser.


Dentro é o único lugar possível de controlar. Não importa as variáveis e os desvios.


2020 incomodou.


Só que mais do que histórias, adaptações, alegrias ou imensa tristeza, virou bagagem.

Fica pra gente a chance de usar no futuro, aquilo que agora carregamos nas costas.


Autora: @rafaelacarvalhoescritora