Primeiros dias

PEDRO

Dizem que o primeiro é de vidro, o segundo é de borracha, os demais são de ferro.


Mas não é bem assim.


O que chega no seu colo, não importa a ordem, é um bebê. Um bebê dependente como qualquer outro.


Um serzinho que demanda tempo, cuidados e dedicação (e bota dedicação nisso).


Um neném que tem cólica, fome de presença, e que cria craquinha fedida atrás da orelha (e que é descoberta por acaso, na inocência de um beijo na nuca regado a cheiro esquisito).


Bebês são sempre bebês, não se transformam em ferro.


De ferro passa ser a consciência de que nada do que fazemos vem acompanhado de garantias. E que não é verdade que eles não aguentam. Que não aguentam o espirro diretamente no rosto, seguido de abraço apertado da irmã. Que não aguentam chorar por 75 segundos enquanto você salva o almoço das garras do “coloquei no forno, mas esqueci de ligar o timer.” Que não aguentam comer uma coisa diferente sem que isso comprometa a saúde eterna, o sucesso vitalício e a pseudofelicidade permanente.


De ferro passar a ser a noção das estações. O “aproveita que passa rápido” ganha outra dimensão. E traz o aprendizado de que todo período angustiante, que te leva a incansáveis pesquisas no Google, tem mês, dia e hora para acabar. O calendário é que é secreto. E essa é que é a graça.


De ferro é o saber que cabe. Que cabem as pausas, os novos planos, as adaptações.

Que cabem os nossos sonhos e os deles também. Cada coisa na sua vez, tempo e espaço.


De ferro passa a ser o chorar pelo resultado de hoje com a esperança de que o amanhã é casa de todo recomeço.


De ferro passa a ser o acreditar nas próprias habilidades. No entendimento de que quando nada é possível, ainda assim era o caminho. Pois becos sem saída têm o que ensinar. Só resta descobrir quais são as lições.


De ferro ficam os ouvidos, que filtram os conselhos que valem dos que não se encaixam em uma realidade que - tcharam! - você já conhece e já confia.


Filhos lapidam o nosso interior, nos convidam (empurram precipício abaixo) para difíceis experiências, estremecem verdades, pedem por novas versões de nós mesmas.


Não é o material que muda.

São as lentes.

É a gente.

Autora: @rafaelacarvalhoescritora